Up e os Personagens de Contraponto

Como vimos na estrutura em Sete Passos, é importante dar uma necessidade ao herói, algo que ele precisa aprender ou evoluir, mas que não é de sua consciência, e um desejo, algo que ele quer abertamente. No mundo ideal, essa necessidade e esse desejo devem conflitar no interior do personagem, e tal conflito deve ser mostrado através de suas ações.

O problema é que, se demonstrado apenas de maneira interna, esse conflito pode ficar fraco e não criar investimento do leitor. Além disso, descrever demais sentimentos ou forçar muito a ação de um personagem pode ficar cansativo, além de quebrar a ideia do “Mostre, Não Conte”.

Para isso usamos Personagens de Contraponto.

A ideia básica é ter um personagem que represente a vontade do herói e um que represente sua necessidade. Óbvio que não precisa ser tão simples e monotemático, mas a ideia é dar a possibilidade do herói enxergar com os próprios olhos o que suas buscas lhe proporcionam.

Lembram do filme Up? É um ótimo exemplo de personagens de contraponto.

Como Up Trabalha os Personagens

Após a morte de sua esposa, Carl vive uma vida reclusa e não gosta de ser incomodado. Ele deseja ficar sozinho para ter paz e preservar a memória de Ellie, a falecida.

Devido a fatos extremos, Carl precisa fugir, mas ele não pode deixar sua casa para trás. Ela representa a sua ligação com Ellie e é seu local de refúgio. Portanto, ele abre o teto e foge junto com a casa, flutuando em milhares de balões. O destino: um ponto isolado na América do Sul, onde ele e Ellie sonhavam “descansar”.

Ele não contava com a presença de Russel, um jovem escoteiro que precisa ajudar um idoso para poder ganhar a única medalha que ainda não possui. Carl não gosta de Russel, e o vê como um importuno, atrapalhando a chegada em seu objetivo. O jovem escoteiro é animado e logo se apega a Carl, e o velhinho logo fica sabendo que o jovem sofre com solidão e distanciamento de seu pai.

Russel é a personificação da necessidade de Carl, em sua vontade por conexão com seu pai e em pertencer a um grupo.

Além de Russel, Carl encontra Dug, um animado cão que, graças a um dispositivo em sua coleira, é capaz de falar. Dug não é um personagem de contraponto, mas é tão fofinho que é impossível não comentar sua presença.

“Esquilo!”

Ao chegar a seu objetivo, Carl encontra Charles Muntz, um herói de sua infância. Tal como Carl, o renomado explorador encontrou no local remoto o seu lugar, contudo por objetivos completamente diferentes. Após pouca conversa, fica claro que Muntz é louco, apaixonado em uma busca, mesmo após tantos anos.

Charles Muntz é a personificação do desejo de Carl, em sua vontade egoísta por isolamento e cego em sua própria busca.

Duas Visões do Porquê Buscar seus Objetivos

Fica claro nesse ponto as visões sobre mundo que Carl tem conflitantes dentro de si, expostas através de outros personagens. Russel está em uma busca, mas seu objetivo é uma maior conexão com seu pai e com o mundo a sua volta. Muntz também está em uma busca, mas ela é destrutiva e alimentada por seu ego.

Tal embate faz Carl repensar seu modo de lidar com a situação. Após reler uma frase de Ellie, ainda não vista por ele, ele decide abandonar o local de segurança e partir para salvar seu novo amigo, inclusive sacrificando seu bem mais precioso, que simbolizava seu eu do passado.

Existem muitos outros simbolismos na obra, mas esse é o mais focado nos personagens em si. Dessa forma, o duelo moral da obra fica claro, e a decisão de Carl no final, em ajudar Russel e voltar para a civilização demonstra que o tema da história é sobre a importância das relações humanas e maior conexão com nossos pares.

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