As Crônicas da Nova República Paulista – Carga Internacional – Parte 1

O odor da Parada Russa era uma mistura de álcool puro e cerveja barata. Seu Mauro, o dono do lugar, costumava se orgulhar, dizendo se tratar de um “boteco das antigas”, mas eu estava mais inclinado a dizer “fedendo a bar”. Nunca na frente dele, é claro, pois seria indelicadeza.

Era um lugar com muitos clientes. Apesar da localização tão ao norte da República de São Paulo, a vodca barata no cardápio garantia a presença de tantos viajantes e caminhoneiros. Combinando isso com quartos baratos, você quase conseguia fazer vista grossa para um combustível tão inflacionado. Quase. Mas um dono de estabelecimento tem que ganhar dinheiro, e eu mesmo não gastava com combustivel.

Aliás, o nome real do lugar era Lanchonete do Rio Verde, mas como não tinha rio nenhum e sobrava vodca, todo mundo conhecia como Parada Russa.

Caminhão

Eu estava sentado no fundo do lugar, numa das poucas mesas que tinha encontrado com algum grau de limpeza, organizando meus selos quando percebi ela se aproximando. Eu não era burro, estava sentado de costas para a parede, mas demorei a entender que ela vinha em minha direção.

Era uma mulher alta, por volta de 1,80. Tinha cabelos encaracolados soltos, caindo até os ombros, e um rosto cansado. O nariz era fino e tinha uma pinta na ponta, mais caída para o lado esquerdo. Estava usando uma calça jeans bem escura, com botas de cano tão alto que quase chegavam no joelho, e uma camiseta branca sem estampa, suja e surrada. Suspensórios pendiam de cada lado, até os joelhos, dando um visual despojado. Mas o mais importante é que ela estava carregando dois canecos de cerveja.

Eu não estava bebendo nada porque fiquei sem dinheiro depois daquele meu mal entendido com a gangue de motoqueiros, e alugar um quarto do Seu Mauro prometendo pagar só no mês seguinte já era abuso demais de sua boa vontade. Algo para beber cairia muito bem, obrigado.

– Posso lhe pagar uma bebida? – ela perguntou com uma voz grossa e, antes que eu respondesse já havia se sentado. Não havia gentileza em sua voz e eu teria recusado uma conversa com ela se não fosse por aquele maldito caneco. Peguei o que ela me ofereceu e não disse nada. Achei absurdo da parte dela sentar sem esperar minha aprovação.

– Ow? – ela chamou minha atenção – Você por acaso é mudo?

– Não – eu respondi, sem levantar os olhos dos meus selos – só estou ocupado. Algo em que eu possa ajudar?

– Pode começar olhando para mim quando falo com você.

Com relutância ergui a vista e vi melhor seu rosto. Ela era bonita. Estava cansada e não tinha se arrumado, mas era bonita. Os ombros eram altos e largos, e os braços dela eram maiores do que os meus (o que não era algo tão impossível, pensando em retrospecto). Acima de tudo, e mais chamativo que os músculos, ela irradiava ação. Ali estava uma mulher que qualquer pessoa gostaria de ter ao lado e odiaria ter contra em uma briga de bar.

– Assim é melhor – ela tomou um gole de sua cerveja – Mauro me disse que você é navegador.

– Sim – disse depois de tomar um gole. Estava quente, choca e aguada, mas desceu como mel – Um dos bons.

– Tem o registro?

Eu saquei minha carteira e mostrei meu registro a distância. Ela apertou os olhos e fez menção de pegar, mas eu afastei meu documento.

– Não consigo ler a essa distância, caceta. Dê aqui.

– Dar o meu documento mais importante para uma estranha? Acho que não.

Ela bufou e coçou a testa com a mão esquerda.

– Coloca na mesa então e segura uma das pontas. Eu vou aproximar, mas não vou conseguir pegar se você não deixar.

Não sem relutância, fiz o que ela pediu. Não precisei aproximar muito, só o suficiente para ela ver meu nome e ranking. Ela nem pediu para ver a parte de trás com os números de registro.

– Você ainda é nível D, não um… “dos bons” – ela disse imitando as aspas com os dedos e me fazendo odiar o gesto – não minta para mim.

– Não é mentira, só que antes dos 40 não dá para chegar no nível A. Para a Associação a idade é mais importante que a eficiência.

– E para você?

Olhei para ela quando respondi.

– Eu acredito que antes dos meus trinta eu já sou mais qualificado que quase todos os níveis A e melhor que alguns S – então baixei o rosto para os selos de novo. Era claro que ela teria uma oferta de trabalho para mim, então era melhor não parecer interessado.

A mulher se encostou no estofado vermelho gasto atrás dela, esticando a coluna e me medindo com os olhos. Pesando qual o valor inicial a se oferecer? Decidindo o quão baixo jogaria para usar o efeito de ancoramento de preço? Ou apenas admirando meu rosto?

– Você não tem cara de Maximiliano – ela disse depois de um tempo e eu não consegui evitar olhar para ela.

Admirando meu rosto.

– E tenho cara de que?

– João, Felipe, Rafael… qualquer coisa comum.

Forcei meu olhar mais desinteressado, e quando vi que ela tinha entendido o recado voltei aos selos. A negociação viria.

– Você pode cruzar a fronteira?

Continuei mexendo em meus selos, mas não sei se disfarcei o impacto bem o suficiente.

– Poder eu posso. Agora se eu quero… – balancei os ombros – é uma questão mais complicada.

– Preciso chegar até Vitória. Te pago 400 duques pela ida, se conseguirmos algo para a volta pago mais 200. Se voltarmos batendo lata eu pago a comida e te deixo aqui mesmo na Parada Russa.

Os termos eram ótimos, mas o destino não era simples. Vitória, Espírito Santo, além da fronteira.

– Poderíamos ir pelo Rio, acho que está mais-

– Não, não vamos pelo Rio de Janeiro. Vamos por Minas.

– Minas Gerais está em declarada guerra civil. Não é o caminho mais indicado.

– Por isso preciso de um navegador.

– E o navegador está dizend…

– Você já topou? Eu não ouvi seu “sim” nem apertamos as mãos nem tomamos um shot.

Essa segunda interrupção quase me fez gritar de raiva, mas como não era do meu feitio, consegui me controlar.

– Não sei – disse olhando para cima – acho que 600 pela ida…

– Que porra, você acha que é uma negociação? – ela me interrompeu, de novo – esse negócio de pechinchar não é comigo. São os meus termos ou eu arrumo outro.

– Você não vai achar outro aqui na Parada – eu tentei aumentar meu preço, mas ela respondeu com o argumento que eu menos esperava.

– To cagando.

Era um bom dinheiro. Não excelente, não excepcional, mas era bom. Para alguém que estava se afogando era uma bela tábua de salvação, e eu estava com medo real dela simplesmente sair da mesa se eu tentasse outro argumento.

– Tô dentro. Metade do dinheiro agora e metade depois – e ergui a mão para ela apertar.

Para meu espanto ela pegou os 400 duques da carteira e deixou na minha frente, então apertou minha mão olhando nos olhos. Sem dizer nada, ergueu um “dois” com a mão e logo Seu Mauro trouxe os dois shots de vodca para fechar o acordo. Quando virei já tinha guardado o dinheiro em meus bolsos, tão rápido que o dono do bar não chegou a ver que eu agora tinha como pagar.

– Maximiliano é um nome muito grande. Você tem algum apelido?

– O óbvio, Max. E o seu nome é?

– Edmunda, Eddie para os amigos – e então ela sorriu sem ser de bom humor – e para os empregados também.

Combinamos de nos encontrar no dia seguinte às 10 da manhã no caminhão dela (“O azul, mais bonito com o container lacrado na traseira”) para já começarmos a viagem. Eu passei algumas horas na noite anterior planejando o melhor caminho e criando uma rota principal e diversas alternativas ao longo da estrada para casos de imprevisto que obviamente enfrentaríamos, dada a situação política do terreno. Eu sabia que ela revisaria meu trabalho antes de começarmos então fiz o melhor para deixar os meus planos apresentáveis e só depois, já madrugada alta, fui dormir, contente por ter um trabalho de novo.

Ela estava fazendo a vistoria dos pneus quando a encontrei. Eu não era um grande especialista em caminhões, mas era azul claro e bem cuidado, carregando um enorme container metálico que reluzia no sol.

– Esse é o Leôncio – ela disse, sem esconder o orgulho na voz – o carburador engasga as vezes, mas é só quando ele fica mal humorado.

– É bem bonito.

Então ela se virou para mim e seu rosto ganhou um ar curioso. Ela começou a olhar para meus braços e costas, procurando algo. Eu estava carregando apenas as folhas de papel com minhas rotas.

– Onde estão as suas coisas?

– No quarto ainda. Achei que você iria querer avaliar as rotas. Tenho algumas sugestões, mas se você quiser…

– O que eu quero é que você pegue suas coisas e jogue ali atrás – ela bufou – Porra, falei que queria sair cedo – e sem cerimônia pegou as folhas da minha mão e jogou dentro da cabine.

Admito que fiquei desconcertado, tanto que minha lembrança seguinte é estar jogando as poucas roupas e cacarecos dentro da minha mochila e correndo para fora de novo. Quando me sentei no banco do carona, Eddie me apontou a parte de trás da cabine. Ali tinha um baú com um colchonete em cima que, se você se espremesse, conseguia deitar e dormir. O baú se erguia e ali estavam as roupas e alguns pertences da motorista. Deixei minha mochila ao lado, fazendo o possível para não encostar muito na parte dela.

Além do luxo do colchonete, o banco do passageiro continha outra raridade: uma espécie de mesa sobre o painel. Eu gostei bastante dessa pois facilitaria meu trabalho deixar os mapas abertos e ir me organizando. Inclusive foi sobre ela que achei os meus papéis.

– O Leôncio tem muitos luxos – eu disse, tentando melhorar um pouco nossa relação.

– Sim, ele é bem legal – ela respondeu sorrindo – a cama é boa quando se está em dupla, que um pode dormir enquanto o outro fica de guarda. Idealmente seria para dirigir dobrado, mas isso foi antes de todas essas lutas.

– Saquei – eu concordei com a cabeça – mas eu gostei muito dessa mesa. Vai facilitar bastante.

Ela não respondeu mais, apenas revisou alguns instrumentos e anotou algo num bloco de notas que ficava embaixo do banco de motorista.

–  Quando passarmos da fronteira, eu quero que você esteja ligado porque não pararemos muito.

Eu não soube o que responder e ela só girou a chave da ignição. Leôncio não parecia um caminhão novo, mas o ronco que ele fez deixaria qualquer outro veículo com inveja. Não era tão alto quanto você esperaria de algo do seu tamanho, mas era profundo e agressivo.

Seriam quatro horas até Cachoeira Paulista de acordo com meus cálculos. No total, quatro horas e meia até a fronteira internacional com o Brasil.

CONTINUA

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