Resenha: O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota – Olavo de Carvalho

A uns bons quatro ou cinco anos atrás eu esbarrei em um vídeo de um homem chamado Olavo de Carvalho onde este expunha que a Pepsi estava usando células de fetos abortados como adoçante nos refrigerantes. A frase é tão absurda que eu logo cataloguei o autor na aba de “teoria da conspiração”, mas pelo sim pelo não, eu procurei outras fontes do que ele estava falando e achei um ótimo vídeo do Pirula explicando o porquê dessa frase ser errada, o que de fato ocorre e a ignorância (ou desonestidade) de Olavo de Carvalho.

Depois desse primeiro contato com o autoproclamado filósofo, escutei outras teorias do mesmo, tais como que a política antitabagista é apenas um experimento de engenharia comportamental em escala planetária, que o aquecimento global é uma grande fraude, que a Segunda Guerra foi preparada e provocada por Stalin , entre outras mais escabrosas. Todas sempre explicadas com uma linguagem chula, cheia de agressões gratuitas e palavrões. Algumas eu achava engraçada, outras eu via apenas como geração de discussão para aumentar views, mas pensava que ninguém levava ele muito a sério.

Até esse ano.

Do começo do ano até depois as eleições, a influência de Olavo de Carvalho cresceu exponencialmente. Filósofo, influenciador dos conservadores, “parteiro” da Nova Direita brasileira, sendo chamado de professor por muitos. Num primeiro momento achei que fossem duas pessoas diferentes, mas logo percebi meu engano. O Olavo de Carvalho idolatrado como precursor e criador do pensamento que norteia a nova política brasileira é o mesmo que advoga que Obama é, na verdade, um agente russo programado hipnoticamente infiltrado na política norte americana.

Quando vi o livro “O minimo que você precisa saber para não ser um idiota” sobre a mesa do presidente eleito Jair Bolsonaro decidi que precisava entender o raciocínio por trás de tudo aquilo. A decisão do presidente em acatar algumas indicações do próprio Olavo de Carvalho para seus ministérios me fez apressar a decisão e a leitura da obra.

A Obra

O livro é dividido em 25 capítulo, e cada capítulo é um apanhado de artigos de Olavo de Carvalho referente ao tema.  Nos artigos, Olavo expõe os pensamentos e palavras que agora estão em alta na discussão política do país. “Marxismo cultural”, “gayzismo”, “esquerdistas” são expressões recorrentes na leitura, bem como o palavreado chulo e argumentos agressivos.

Os argumentos de Olavo de Carvalho, via de regra, começam com alguma variação da seguinte fórmula:

Vou lhe dizer algo óbvio

Quem não consegue ver o óbvio é um idiota

E o óbvio é isso: idéia

Qualquer um que não veja isso é um idiota

Essa estrutura de exposição tem uma séria de problemas, mas o maior é a criação de um cenário de insegurança para o leitor. Caso seja a primeira exposição do mesmo ao argumento, pelo medo de “não querer ser um idiota”, este fica mais propenso a acreditar com a ideia. A conclusão do texto, usualmente com mais palavrões e agressividade, cementa no leitor a sensação de que acabou de ter contato com algo verdadeiro. Quando começa o próximo capítulo, mesmo que não tenha confirmado as informações, sai crente que aprendeu algo importante.

Esse tipo de argumentação é lamentável quando falamos apenas em contextos ideológicos, mas se torna efetivamente perigoso quando começa a atacar pontos históricos. Um exemplo: quando Olavo tenta explicar os males do que ele chama de “pensamento revolucionário”, ele distorce a Revolução Francesa:

A França, antes de 1789, era o país mais rico e a potência dominante da Europa. A revolução inaugura o seu longo declínio, que hoje, com a invasão islâmica, alcança dimensões patéticas.

A primeira afirmação é, historicamente falando, falsa. Mas, como você começou o capítulo sendo acusado de idiota caso não concorde, se não tiver conhecimento da história e causas da Revolução Francesa, tomará como verdade. O argumento continua, chamando a política de abertura a imigração recente como “invasão islâmica”, cimentando ainda mais o seu conhecimento recém adquirido e pavimentando o caminho para os próximos capítulos, onde Olavo ataca o plano global de eliminar a religião católica.

Alvos e negações

Olavo de Carvalho tem posições extremas sobre temas contemporâneos, e ignora qualquer conhecimento ou dado científico ao abordar suas ideias. Discussões sociais modernas também são deixadas de lado em prol de um conservadorismo religioso e um moralismo agressivo.

Um bom exemplo disso é o capítulo cujo nome é “Gayzismo”. Olavo advoga que há um interesse supranacional comunista de destruição das famílias na fomentação de uma ideologia “gayzista”. Ignorando qualquer análise recente sobre sexualidade, orientação sexual, identidade de gênero, Olavo prega que diferentes orientações sexuais são construção de um Projeto Marxista:

Os meninos criados sem um pai são inseguros, tímidos, fracos? Ótimo. Com alguma lábia, são levados a crer que são transexuais latentes, inadaptados, coitadinhos, no meio social machista. São turbulentos, antissociais? Melhor ainda. Eis a prova de que a sociedade capitalista é intrinsecamente violenta, geradora de brutalidades.

É uma linha argumentativa absurda, que continua atacando o tema usando pontos cada vez mais bizarros.

Não posso crer que meu pai teria agido melhor se em vez de depositar seu esperma no ventre de minha mãe ele o injetasse no conduto retal do vizinho, de onde o referido líquido iria para a privada na primeira oportunidade.

O capítulo todo tem esse tom de ataque, e, ignorando qualquer discussão atual sobre homofobia e leis de criminalização, Olavo de Carvalho tenta “virar a mesa” e acusar a mídia de esconder a existência de uma classe criminosa de “homossexuais assassinos”.

Que tão avassaladora ascensão do autoritarismo seja necessária para proteger os pobrezinhos bissexuais contra piadas, gracejos e citações da Bíblia é um argumento tão risível que somente um idiota completo ou mentiroso desavergonhado poderia fazer uso dele num debate sério.

[…]

Muito maior que o número de vítimas fatais da “homofobia” é o de homossexuais assassinos, um fato óbvio que a mídia esconde sistematicamente, reforçando o engodo legislativo com a fraude jornalística.

Repare que a questão não é de discordância ideológica. É possível discutir se é necessário a criação de leis de proteção a homossexuais ou não. Eu sou completamente a favor, dados os números alarmantes de assassinatos motivados por ódio à homossexualidade, mas o ponto a ser erguido aqui é a desqualificação do oponente que Olavo sempre tenta incutir em seus textos, além de uma mudança de foco. Para o autor, não é uma questão social, mas um subterfúgio de marxistas culturais. Ao afastar a discussão racional, se torna impossível atacar o problema real.

Homossexualismo é uma coisa, movimento gay é outra. O primeiro é um pecado da carne, o segundo é o acinte organizado, politicamente armado, feroz e sistemático a dignidade da Igreja e do próprio Deus.

Do ponto de vista academico, Olavo nunca se formou em filosofia, e seu ódio ao intelectualismo é claro:

São os intelectuais que, primeiro, dissolvem o senso dos valores morais, jogam os filhos contra os pais, lisonjeiam a maldade individual e fazem de cada delinquente uma vítima.

Outro exemplo é o ataque a personalidades famosas do campo acadêmico. Newton, por exemplo:

Teorias científicas não nascem prontas do céu das ideias puras. Todas trazem no fundo algum elemento ideológico […]. Newton não concebeu sua teoria gravitacional só para explicar determinados fatos da natureza – embora ela ainda seja ensinada assim à população ginasiana – mas como parte de um projeto abrangente de destruir o cristianismo trinitário e substitui-lo por uma religião de “unidade absoluta”, de inspiração esotérica.

Quando entramos no campo sobre evolução, as visões religiosas de Olavo ficam ainda mais evidentes quando ele tenta desqualificar Darwin:

Darwin não inventou a teoria da evolução: encontrou-a pronta, sob a forma de doutrina esotérica, na obra do seu próprio avô, Erasmus Darwin […]. Tudo o que fez foi arriscar uma nova explicação para essa teoria – e a explicação estava errada. Ninguém mais, entre os proclamados discípulos de Darwin, acredita em “seleção natural”.

Quando tenta caminhar para política propriamente dita, Olavo “expõe” que a América Latina é comandada pelo Foro de São Paulo e por Cuba.

Cuba está quietinha no seu canto, sem mexer na política de outros países? Leiam as atas do Foro de São Paulo. Cuba governa o continente.

Esse é o tema mais recorrente do livro: a crença de que os governos da américa latina e da ONU sejam agentes de dominação comunista e da destruição da família e do modelo de vida católico ocidental. A linha argumentativa que os mais ricos do mundo financiam governos de esquerda para manipularem e cessarem as variações do mercado financeiro é tão absurda que beira o risivel.

E aqui vemos o reducionismo olavista em seu teor máximo. Para Olavo, todo conhecimento político não conservador é de esquerda, e toda esquerda é comunista. Mesmo conhecimentos sociais históricos e bases filosóficas para pensamentos modernos são atacados pelo autor.

Teorias como “contrato social” de Rousseau, a “mais-valia” de Marx, a “consciência possível” de Lukács, a “personalidade autoritária” de Horkheimer, etc já viraram poeira atômica no laboratório crítico e hoje só sobrevivem como capítulos exemplares na história da pseudociência universal.

Quando faltam argumentos propriamente ditos sobre as ideias que ele categoriza como esquerda e direita, os ataques passam a ser morais

Numa comparação entre os personagens maximamente influentes dos dois campos, não é possível deixar de notar a superioridade moral dos direitistas e a ausência completa de um só tipo moralmente bom entre os esquerdistas: são todos maus, sem exceção.

Irracional

Como você pôde ver, eu usei muitas citações do próprio livro, pois não há forma mais efetiva de mostrar o absurdo que é Olavo de Carvalho do que lendo suas ideias bizarras. Uma última para mostrar o que o autor pensa sobre os equipamentos de segurança em aeroportos:

Uma das suas[do Homeland Security] grandes realizações foi instalar nos aeroportos máquinas de raios X que revelam às autoridades o tamanho dos pênis e os modelos das calcinhas. Nenhum terrorista foi jamais descoberto por esse meio.

No geral, é um livro com argumentos falsos e que usa parte da verdade para tentar manipular a percepção do leitor. Apela para agressividade e manipulação emocional para convencer, e usa fontes não confiáveis como base de suas ideias. É triste vê-lo sendo usado como bússola ideológica de uma pessoa, e desesperador quando é usado em uma nação.

E o que mais me assusta é pensar que pode ser tudo premeditado. Há um capítulo no livro com a frase abaixo:

A fórmula é bem simples: na confusão geral das consciências, toda discussão racional se torna impossível e então, naturalmente, espontaneamente, quase imperceptivelmente, o centro decisório se desloca para as mãos dos mais descarados e cínicos, aos quais o próprio povo, atônito e inseguro, recorrerá como símbolos derradeiros da autoridade e da ordem no meio do caos. 

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2 respostas a “Resenha: O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota – Olavo de Carvalho”

  1. Rubem,

    Eu acho que esse livro na mesa do presidente é mais um dos muitos símbolos que ele aponta por aí. O motivo? Acho que sua conclusão é impecável, no caos, todo argumento racional fica automaticamente inviabilizado, e o pedido de ordem e progresso retorna aos mais desesperados. Que o bule tenha piedade de nós.

    1. O que mais me espanta é que o livro todo tem esse tom debochado e de premissas frágeis. Uma leitura rápida já veria alguns dos absurdos.

      Muito dificil crer que alguém o usa como “livro de cabeceira”, quanto mais um presidente.

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