As Crônicas da Nova República Paulista – Carga Internacional – Parte 5

Havia um som agudo e constante e uma dor grande em minha perna e clavícula esquerda. Fumaça. O capo do Maverick estava amassado e saindo fumaça, e o cheiro invadia minhas narinas, me deixando mais desperto.

Então a compreensão veio inteira. Eu havia batido. Olhei em volta, mas devagar pois minha cabeça doía demais, e vi o carro de meus perseguidores capotado uns dez metros à minha esquerda. Ouvia o ronco de Leôncio, mas não via ainda a estrada. Onde ela estava?

Então uma careca surgiu na janela do carro capotado, e saiu debaixo do veículo com agilidade assustadora para alguém que havia acabado de bater. Ainda estava de óculos escuros, mas o palito na boca havia sumido.

Caminhão na estrada

Cobretti olhou em volta e me achou. Senti o sangue gelar nas veias enquanto brigava com o cinto para conseguir sair do carro. Ele se aproximou correndo e enfiou a bota pela janela do motorista, me acertando um chute no rosto, tão forte quanto um coice de mula, e estrelas surgiram na minha vista. Vi o brilho de uma faca na cintura dele, e percebi que, embora não tivessem armas de fogo, isso não significava que era um embate seguro.

“Por que fui me meter nessa?” a parte de trás da minha cabeça berrava sob a redoma que me envolvia.

Eu precisava sair rápido do carro. Mesmo que não conseguisse vencer, era melhor do que apanhar sem revidar. Percebi que o cinto havia travado na batida, quando Cobretti aplicou o segundo chute, e senti uma parte da minha cabeça querendo desligar. Se estivesse de pé, teria caído, pois meus joelhos estavam tremendo.

O terceiro chute veio e meu corpo desmontou. Apenas minha mão direita continuava, num esforço puramente muscular, apertar o botão para me soltar do cinto. Dentro de meu cérebro eu sabia que era inútil, pois mesmo se me livrasse, não conseguiria ficar de pé. Minha cabeça estava apoiada no estofado, apontando para fora, e eu não tinha forças para a tirar do caminho. Não havia som nenhum no mundo. A bota de Cobretti se afastou e ele levou a mão até a faca. Era uma coisa enorme, quase impossível de manejar, mas ele apertou o punho em torno do cabo e a girou com uma habilidade ímpar. Eu não tinha forças para resistir.

Foi quando surgiu um vulto branco e preto e a figura na janela desapareceu. Ainda não conseguia mexer a cabeça, mas ela estava apoiada no estofado, olhando para fora. Os sons ainda não existiam, mas eu vi Eddie em cima de Cobretti, tentando manter o homem por baixo, desferindo socos apoiados pela força da gravidade.

Num esforço de quadril, Cobretti afastou a caminhoneira e se ergueu. Eddie fez o mesmo com aqueles olhos determinados que ela tinha e girou para ficar entre o homem e a faca, que agora estava caída no chão perto da porta. Eu tentava me esforçar para levantar, mas o único músculo que ainda se mexia era minha mão apertando o inútil botão do cinto de segurança.

Eles falavam algo, mas os sons ainda não existiam na minha cabeça.

Cobretti sorriu de repente, e o sorriso sumiu quando ele avançou com um soco, que Eddie aparou na testa. Num primeiro momento eu achei que ela havia simplesmente falhado em evitar o golpe, mas quando vi o sorriso de Cobretti baixar um pouco, ele apoiar a mão na outra em dor, e Eddie sorrindo, entendi que ela havia quebrado a mão do homem. Com a testa.

Ela disse algo debochado, e Cobretti agora tinha a postura mais tensa. Era claro quem estava na vantagem.

“Mantenha a concentração” minha mente gritava, mas meus lábios também não se mexiam. Eu voltei a conseguir mexer um pouco minhas pernas, o que era um bom sinal. Alguns segundos a mais e talvez eu conseguisse levantar. Meus olhos foram instintivamente para a faca no chão.

Eddie diminuiu a distância entre eles e começou a trocar socos com Cobretti. Ele manteve sua posição, mas evitava usar a mão direita, danificada no primeiro golpe. Eddie tinha a clara vantagem, e Cobretti apenas mantinha a mão baixa enquanto se esforçava para competir apenas com a esquerda. Eddie estava tão próxima que chutes eram desaconselháveis.

O cinto se abriu de repente, e voltou tão rápido que acertou meu queixo, mas minhas pernas ainda não me obedeciam. Comecei a erguer a mão para abrir a porta.

Eddie pressionava Cobretti que apenas se defendia. Então ela baixou a mão esquerda para jogar todo o corpo num potente soco da mão direita.

Foi quando a mão ferida de Cobretti se ergueu num tapa aberto e acertou a orelha da caminhoneira. O sorriso voltou ao rosto do careca quando ele se jogou sobre ela, que agora estava desequilibrada pelo golpe.

Consegui abrir a porta do carro.

Cobretti apoiava o pescoço de Eddie com a mão esquerda enquanto erguia a direita e lhe acertava um soco na bochecha. Pensei ter ouvido o ruído da pancada, mas foi só a violência do momento.
Forcei minhas pernas para fora e me levantei, embora ainda não conseguisse me firmar.

Eddie pareceu atordoada por um momento, então Cobretti levou as duas mãos ao seu pescoço. Minhas pernas ganharam vida e, não sem esforço, me abaixei e peguei a enorme faca. Era escorregadia na minha mão.

No primeiro passo, meu equilíbrio vacilou e eu caí de bunda no chão, incapaz de me erguer. Mas foi o suficiente para eu ver melhor o rosto de Eddie, e seus olhos queimando de ódio.

Ela baixou o queixo e mordeu a mão esquerda de Cobretti. Ele tentou manter a posição, mas o sangue começou a escorrer e ele precisou afastar o membro. Foi o suficiente.

No espaço deixado por Cobretti, Eddie deu um soco de baixo para cima, impossível de se bloquear. Foi a vez do rosto do homem perder um pouco do foco. Então ouvi o primeiro som claro desde a batida.

O urro de Eddie, no momento em que ela forçou o corpo para cima e, num único movimento, trocou de posição com Cobretti. Ela agora por cima e ele, com o rosto ainda perdido, por baixo. Não havia mais luta.

No que pareceu uma eternidade e mil socos depois, ela se deu por satisfeita. Cobretti estava desacordado quando ela se levantou e veio em minha direção. Colocou a mão no meu ombro e avaliou minha perna.

– Nada quebrado, Max – ela conseguiu sorrir com os lábios ainda sujos de sangue – nada quebrado.

Um som veio do opala tombado, e Plínio saiu dali, trôpego e sem muita noção de onde estava. Eddie correu na direção dele e acertou um soco tão forte que o homem pareceu voar para o outro lado.

– Amassou o para-choque – ela disse.

Então ela me ajudou a levantar, eu me apoiei nela para ir até Leôncio, e vi que Plínio realmente havia batido o para-choque do caminhão. Ela me colocou na cadeira do carona, apertou o cinto e eu apaguei.

Acordei em uma cama suja, mas macia. Não era a Parada Russa, mas algum hotel do caminho. Fiquei irritado, pois eu deveria estar em um hospital. Ouvi Eddie falando com alguém no telefone.

– Sim, estou com a carga – então alguns segundos de silêncio – porque era para um grupo de rebeldes, merda!

Soube que ela falava com seu empregador.

– Sim, assim que fiquei sabendo eu voltei para devolver a vocês – mais silêncio – vou devolver o valor do frete, descontado o valor do combustível que gastei até um terço do caminho.

Ela desligou o telefone e bufou irritada. Então se virou para mim e viu que eu estava acordado.

– Como está a perna?

– Bem – eu respondi, e era verdade – Dolorida, mas bem.

Ela assentiu com a cabeça.

– Eles não sabiam que era para rebeldes? – eu perguntei.

– Claro que sabiam. Mas não podiam dizer que sabiam, então estão dando o louco.

Foi a minha vez de assentir.

– Aliás – ela se virou para mim irritada – obrigada por me fazer perder o dinheiro. Se eu soubesse que meu navegador iria ter uma crise de consciência, teria arrumado outro.

– Calma lá – eu respondi, me irritando também – você não falou qual era a carga! Se eu soubesse que eram armas, eu nunca teria concordado.

– E por que não?

– Eu já disse, não é certo! Eu não quero ser cúmplice de mais uma guerra de secessão.

– Alguém vai levar a carga, Max – ela disse, explicando como se explica para uma criança de quatro anos – se não eu, alguém.

– Que esse alguém suje suas mãos. Não eu.

Ela suspirou cansada.

– Você discorda? – eu perguntei em desafio – Acha que o receptor final dessa carga era muito diferente de Cobretti?

Ela apenas olhou para mim. Havia fadiga em seus olhos, uma fadiga tão profunda que eu mesmo me abati.

– Como você sabia? – ela perguntou e então explicou – que eles parariam na igreja?

Me empertiguei o máximo que minha situação permitia.

– Santana do Capivari é um ponto diferenciado. Estradas partem dali para os quatro cantos do Estado. Se fosse existir um ponto de distribuição de armas, seria ali, e o único prédio em condição de abrigar rebeldes era a igreja, como vimos.

Ela ergueu a sobrancelha.

– Uma aposta ousada.

Eu fiz que sim com a cabeça, satisfeito. Ela se levantou e saiu do quarto.

Três dias depois, voltamos para a Parada Russa. Eu já estava firme e forte então, e tentava engatar alguma conversa com Eddie, mas ela estava mal humorada demais para qualquer coisa. Chegando no lugar, nos sentamos na mesma mesa onde havíamos nos conhecido. Eu pedi dois canecos de cerveja e paguei adiantado.

– Aqui – eu ergui a mão e entreguei metade do dinheiro – não chegamos até o final, nada mais justo que devolver o dinheiro.

Ela pegou da minha mão e pareceu se animar um segundo. Então olhou para mim irritada.

– É só metade. Nós nem chegamos na metade do caminho. Muito correto da sua parte, hein?

Eu nem soube o que responder. Estava sendo generoso e ela mal educada. Algumas coisas não mudam mesmo.

Ela se afastou em direção ao bar, levando seu caneco de cerveja, e eu fiquei na mesa pensando mais alguns minutos sobre tudo o que ocorrera nos últimos dias. Fiquei feliz com o desfecho das coisas, apesar do aperto que passamos.

– Max – veio a voz do Seu Mauro – telefone para você. Era para a Eddie, mas disse que podia ser para o navegador dela também. Acho que é você.

Fui direto para o telefone, sem olhar para o dono do bar. Não queria lhe dar tempo para cobrar os dias que estava lhe devendo.

– Alo?

– É o navegador?

– Sim – respondi irritado. De Maximiliano tinha virado “Navegador da Eddie” – quem está falando?

– Eu encontrei o meu carro.

De onde eu conhecia aquela voz?

– Não entendi.

– Diga para Eddie – o homem agora vociferava do outro lado – diz para ela que eu achei meu carro. E que não está do jeito que eu deixei com ela. Aliás, com vocês dois.

Barão. O homem que havia nos emprestado o Maverick.

O carro que eu tinha batido.

– Eu avisei – ele continuou – sem amassados. Sem riscos. Mas ela bateu.

– Escute, nós podemo…

– Podemos merda nenhuma – ele me interrompeu – vocês acham que a fronteira vai proteger vocês? Avise Eddie que estou indo. Avise que estou a caminho.

Olhei para Eddie. Ela bebia um shot de vodca no balcão quando o Barão desligou.

FIM

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