Terror na Floresta – Parte 4

O caminho de volta foi muito mais dificil de achar do que Joe esperava. Aquela maldita garoa fina estava tornando tudo muito incomodo, Ag estava cada vez mais fraca, e, pior de tudo, ele via um olho amarelo cada vez que virava a cabeça. Com o sangue esfriando, ele começou a sentir o terrível medo que a criatura que os tinha atacado evocava.

De onde havia surgido tal coisa? Ag sabia algo sobre aquilo, como a questão do fogo, mas ele não tinha certeza se queria saber os detalhes. Talvez fosse melhor pensar sobre o caminho de volta.

E por que ela tinha recuado, bem na hora em que tinha todos em seu poder? Ele não entendia aquilo.

Ag fraquejou e se dobrou no chão com uma careta de dor. Joe se abaixou para ver com cuidado o ferimento. Ele não estava acostumado a um corte tão irregular, mas sabia que o ferimento não era simples. Era profundo, e havia arrancado um bom naco de carne, entre o meio do braço e o ombro. Sangue escorria aos montes dali, e o musculo e nervo com certeza estavam danificados. Mesmo se tivesse agulha e linha, o que não tinham, ele não saberia como dar pontos em um ferimento daquele. E alguém saberia? Ag nunca mais atiraria com seu arco, ou ergueria uma espada. Ag não conseguiria mais tocar o alaúde ou acender uma fogueira.

Ag estava morta. Talvez não agora, talvez não no próximo dia, mas não havia escapatória.

Antes que Grond pudesse se aproximar muito, ele disse para o outro.

– Grond, fique de guarda um segundo. Vou preparar um curativo para Ag.

Ele não questionou. Ele estava melhor, mas ainda tinha aquela expressão estupefata no rosto, que não combinava com seu tamanho. Aquela expressão que os homens fazem quando estão enlouquecendo.

Ele se abaixou para perto dela, e ela disse com a voz tremendo.

– Eu estou terminada.

– É o que eu acho.

Mas ele pegou um pedaço de sua manga e começou a tentar limpar o ferimento. A garoa minguava agora, e ele agradeceu imensamente por algo tão pequeno. Incrivel como essas coisas conseguem incomodar tanto.

– Você não precisa… – ela tentara começar, mas ele gritou para Grond.

– Grandão, você lembra como pegamos o grupo do velho Franco? Não acho que Ag conheça, você se importa de contar? – ele esperava que Grond distraisse a cabeça. Preferia o homem minimamente capaz.

– Ah, foi naquela pequena estalagem, na beirada entre as terras dos Orgoth e da Congregação.

– Isso mesmo. Como foi isso? – o sangue não estava coagulando. Ela iria sangrar até morrer era o mais provável.

– Eu, você e Felix, aquele pequeno demonio. Nós os rastreamos até lá. Pobres coitados, acharam que haviam nos deixado para trás no lago, mas Felix conseguiu encontrar o rastro deles sem nenhuma dificuldade. Demos um circulo grande em torno do caminho, para deixa-los confiantes, e apostamos que eles parariam na estalagem. Foi um bom plano. Ousado.

Ele sentiu o tom de orgulho do homem e o incentivou a continuar com um aceno de cabeça. Ele estava de costas para Grond, mas apostava que o homem havia visto, pois continuou.

– Felix ficou nos cavalos, para o caso de algum deles fugir por uma janela, e nós entramos pela porta da frente. Ainda não acredito que acertou aquele lançamento.

Joe precisou concordar. Foi um lançamento de faca danado de bom. Pegou o cretino do Franco no pescoço, e o sangue jorrou em cima do outro, que já ficou em estado de choque. Parecendo o estado que Grond estava antes de começar a contar a historia.

Ag estava pálida, ele percebeu um dado instante. Teria febre? Ele apostava que nem conseguiria chegar a isso. Se a falta de sangue não a levasse, alguma infecção o faria. Ou qualquer outra coisa, ele já sabia que ela estava morta, bem como ela sabia também. Talvez a estimativa de mais um dia de vida fosse otimista demais.

– O companheiro do Franco ficou em panico, com o sangue do amigo nas roupas. “Ai caramba, ai caramba”, he he, ele repetia isso sem parar. Eu nem me apressei, aproveitei o panico dele para ir criando o momento. Saquei meu machado e fui andando sem acelerar o passo até aquele balcão.

Ag olhou para ele por um momento e sussurrou só para ele ouvir “Eu não quero ser devorada”. Era um pedido justo, mas aquele não era um momento de justiças. Ele se ergueu, ainda olhando para ela. Era chegada a hora de deixar ela para trás, e ele não achava que Grond se oporia mais, afinal, não havia muito o que pudesse ser feito por ela. Se ela conseguisse andar mais meio quilometro seria um verdadeiro milagre. Instintivamente a mão dele desceu até o cabo da espada. A garoa agora cessara.

– Continue a historia homem… – ele se virou, e lá estava aquela coisa, ao lado de Grond.

Só que Grond estava no ar, na altura do peito da criatura, e então, sons de ossos quebrando começaram a povoar o ambiente. Joe estava se perguntando o que significava aquela cena insólita, até que viu os dentes. E entendeu

Havia uma boca no peito da criatura, logo abaixo do pescoço peludo. Uma boca vertical, que ia até aonde seria o umbigo de um ser humano. E era nessa boca que Grond se encontrava. Não houve gritos, e Joe imaginou que a morte fora quase instantanea. Ag estava com o queixo batendo, de frio e de medo. Os sons de ossos quebrando, e de mastigação claros no ar.

Novamente ela se adiantou e agarrou a camisa de Joe, usando-a como apoio para se erguer.

– Vamos! Corre!

Mas ele estava estupefato. Um homem morrendo numa escaramuça ou no campo de batalha era uma coisa. Um homem sendo devorado era outra, e ele não sabia como reagir a aquilo. Em nenhum momento, pensou ele de repente, ele se viu atacando aquilo com sua espada. Não havia ataque, não havia luta, não havia Conflito. Havia apenas o medo e a fuga. A completa e total falta de defesa de uma presa contra um predador terrível.

– Joe, pelos Três! Acorde!

Ele não respondeu, e apenas se deixou levar a passos trôpegos por Ag. Para a continuação da clareira.

CONTINUA

Compartilhe!

Um comentário em “Terror na Floresta – Parte 4

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *