Terror na Floresta – Parte Final

Eles cambalearam o mais rápido que podiam, o que não era muito, mas a criatura estava ocupada. Os sons de ossos quebrando ainda preenchiam o ambiente para trás, talvez agora apenas nas cabeças deles. Ag estava quase desmaiando, meio apoiada, meio sendo carregada. Ela tinha um olhar forte, mas era claro que estava perdendo a batalha contra a inconsciencia, e Joe estava com a cabeça ainda na visão insólita que ficara para trás. A criatura completamente parada, e Grond caindo, sendo levado, para dentro daquela estranha mandíbula vertical. Aquele grande olho amarelo, sem pupila, não denunciava o foco do monstro, mas para Joe sempre parecia estar olhando para ele. Faminto.

A cabeça de Ag pendeu para frente, num quase desmaio, e Joe precisou parar para manter ela firme.

– Ainda não Ag, precisamos ir mais para frente – ele reconhecia o ambiente em volta. Estava confiante que sairia da floresta.

– Não adianta ir mais para frente Joe, estamos perdidos – ele não sabia dizer se ela estava mais correta que ele, ou se a cabeça não estava mais funcionando direito.

– Mais um pouco – ele forçou o corpo dela a frente.

– Joe – a voz dela agora bem baixa – não me deixe. Não quero ser devorada.

Ele não respondeu, embora não visse outra alternativa. Se quisesse sobreviver ele não poderia carregar ela no colo, mas ainda não valia a pena deixa-la para trás, visto que a criatura não parecia estar os seguindo ainda. Ele permaneceu segurando ela e andando em frente, torcendo para o seu senso de direção estar certo, e eles estarem indo a caminho da saida da floresta. Estar preso não parecia mais tão grave. Ser capturado por Epolaine era quase uma felicidade em sua cabeça.

E ainda tinha algumas moedas na bota. Com sorte, conseguiria subornar algum guarda.

Continuaram em movimento, o ambiente secando a sua volta, pois a garoa tinha parado completamente. Joe já não tinha mais certeza se Ag estava acordada, pois não havia movimento nela além da respiração. Ele conseguiria escapar, sabia disso, mas precisava dela para garantir o tempo.

A clareira se abriu a volta deles e ele teve certeza que era por onde haviam entrado. Ag estava enganada, e ele certo, o caminho era aquele mesmo. Quase sorriu, mas aquele fedor estava começando a preencher sua volta de novo.

“Alguns metros a frente devo encontrar o pequeno caminho aberto por Grond”

Ele deitou Ag no chão e ela abriu os olhos, tentando entender a sua volta. Pálida. Ele não focou nos olhos dela por muito tempo, pois isso só tornaria o seu plano mais dificil. Ele se abaixou ao lado dela, olhando para o caminho de onde vieram. E esperou.

Primeiro fora Felix. Ele esperava que o antigo companheiro estivesse vivo, e havia bons motivos para acreditar nisso. Preso, com certeza. Torturado, talvez. Vivo, bem provável. Isso era um pequeno alento, imaginar que ele não precisara passar pelo pesadelo dos últimos tempos. A fuga tinha ido tão bem até ali, até aquela maldita floresta…

O cheiro agora preenchia profundamente o ambiente.

Depois Grond. Ele já tinha visto o homem matar três homens que decidiram encara-lo. Era um touro e um valioso aliado para se ter em qualquer combate. Por vezes muito nobre, sem dúvida, mas todos tinham seus defeitos. Agora devorado por uma coisa que, até pouco tempo atrás, Joe sequer imaginava existir. Seguir a Estrada Marrom era um ótimo plano, mas não tinha como ele saber que ela havia sido engolida pela floresta, e não tinha como sequer imaginar que a floresta era habitada por algo como aquilo.

Foi o som de um única folha sendo pisoteada que alarmou Joe, e ele saltou para frente sem precisar olhar para trás. Ag tinha os olhos abertos mas não conseguia se mover, e murmurava algo. Assim que terminou o salto, ele viu a criatura se aproximando. Era incrivel como não fazia ruido algum, e ele agredeceu a imensa sorte que teve por escutar a folha. Ele imaginava que aquela coisa viesse pelo caminho que eles vieram, e essa foi uma expectativa perigosa, visto essa movimentação silenciosa.

A clareira deixava os raios de sol passar, o que dava a iluminação necessáriar para Joe ver seu inimigo por completo. Era grande, passando os três metros, e o corpo era coberto de pelos, em algumas partes bem longo e outras mais curto, onde era possível ver os músculos da criatura. Os braços eram bem longos e terminavam em garras como as de ursos, mas mais compridas e ameaçadoras. A cabeça tinha apenas um olho e uma pequena fenda abaixo, que ele imaginava ser o nariz, e o peito tinha os lábios verticais, por onde Grond havia sido devorado. Parecia um ser saido de um pesadelo obscuro, ou de outros tempos, tempos mais antigos, quando o homem ainda não criara as cidades. Aterrorizante e poderoso.

Ele se aproximou alguns passos, agora ciente que havia sido descoberto. Joe percebeu que ele olhava agora para Ag, pois a cabeça inteira foi na direção dela, caida. Ela também pareceu perceber, pois se movia e tentava fugir, mas estava fraca demais. Então a criatura se aproximou dela.

Joe temeu por sua vida, após estar tão confiante. A saida que ele buscava estava alguns metros para trás do monstro, mas ele temia que, se tentasse passar ali, a atenção passaria para ele. Fazia sentido, afinal a companheira já estava vencida. Ele manteve os olhos na coisa e deu alguns passos para trás, evitando qualquer linguagem corporal de combate.

A criatura então se abaixou e abriu a boca na direção de Ag. Um ruido de raiva veio dela, de luta, mas não havia luta. Joe pode ver alguns pedaços de roupas e carne dentro da boca do monstro. Grond, ele sabia, e isso fez seu estomago virar. A cabeça da coisa então parou e ele começou a mover os lábios e as mãos para trazer Ag para dentro. Para a morte.

Foi quando Joe viu sua chance, talvez a única de passar. Ele sacou a espada, a jogou para cima com o movimento e agarrou a lâmina. Feriu um pouco a sua mão, mas ele não se importou, pois a adrenalina começou a rodar. Arremessar uma faca e uma espada eram duas coisas completamente diferentes, mas um dos pontos positivos da espada era o peso. Se acertasse o alvo era quase certeza de sucesso. Então ele lançou na direção daquele imóvel olho amarelo.

Ele não sabia dizer se a lamina perfurou o olho, ou se o cabo havia apenas machucado um pouco, mas ele sabia que tinha acertado quando o urro da criatura fez os seus ossos tremerem. Ela se afastou de Ag e tateou com a pata esquerda a cabeça, enquanto a direita balançava, procurando algo. Procurando Joe.

Joe se abaixou e foi rastejando, evitando fazer barulho, enquanto a coisa procurava o ar e urrava. Ele pegou uma pequena pedra no chão e continuou caminhando. O rosto de Ag ainda estava péssimo, mas ganhou cor quando a criatura se afastou um pouco dela, e ela sorriu para Joe, mas ele não sorriu de volta. Continuou se afastando agachado, em direção a pequena abertura.

Ele deve ter feito algum barulho, porque a pata começou a tatear o chão em sua direção. Mais alguns metros e ele estaria na pequena entrada, precisava ganhar tempo. A pata estava a menos de um metro de seus pés. Então ele lançou a pedra que tinha nas mãos, acertando Ag na cabeça.

– Ugh – ela gemeu.

Então o monstro se voltou na direção do ruido com toda força e desceu as duas mãos no peito de Ag, e ela não existia mais. Joe não olhou, apenas entrou na vegetação baixa, agora agachado e correndo. As suas costas, ouvia o barulho da criatura primeiro atacando Ag, então ouvindo seu som e correndo em seu encalço. Atacando as moitas e galhos atrás dele. Buscando com o braço pelo pequeno buraco. Se jogando e abrindo um caminho para ela.

Mas ele estava se afastando, mais rápido do que ela podia chegar, e tanto ele quanto a coisa sabiam disso. O rosto arranhou um pouco na vegetação mas ele não ligou. Os ruidos de luta ficando para trás, e ele viu a saida, com um pouco de luz do sol entrando.

Ele não sabia porque tinha lágrimas nos olhos quando chegou na luz. Saiu apressado e caiu após dois passos, tentando se erguer, mas desorientado. Não havia ninguém a sua volta, e ele não estava na Estrada Marrom. Então Ag estava certa e eles não haviam encontrado o caminho de volta. Como aquele pequeno tunel havia funcionado?

Ele tateou a mão em sua cintura e não encontrou a bolsa, devia ter perdido na confusão toda. Tudo bem, ele ainda sentia as protuberancias na sua bota. Não era uma grande fortuna, mas era um bom dinheiro. Ao longe, no horizonte, ele viu um filete de fumaça subindo. Fumaça significava fogo, e fogo significava gente. E ele queria gente.

Suspirou e começou a caminhada naquela direção.

FIM

 


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