Terror na Floresta – Parte 2

Ag tinha o arco retesado em direção a aquele olho, enquanto Joe, que estava sentado, desembainhava sua espada devagar, para evitar ao máximo o ruido, e esticava o pé para cutucar Grond, que dormia. Ele pensou que não fazia tanto sentido manter os movimentos devagar, visto que, o que quer que fosse, já os tinha encontrado, mas não conseguiu evitar.

Grond acordou sem ruído e percebeu o clima de tensão. Ele se levantou rápido e empunhou seu machado, olhando na direção para onde seus companheiros miravam.

– O que é? – não mais alto que um sussurro.

Joe não sabia o que responder, mas Ag estava muito tensa para não ter nenhuma ideia do que pudesse ser. O braço dela se esforçava para manter o arco firme, e ele podia ver um leve tremor no cotovelo, que ele não saberia dizer se era somente a rigidez do arco ou medo. O tempo se alongou naquela situação por muitos minutos que demoraram como horas, ele com a espada na mão, Grond com o machado e movendo a cabeça entre a direção do olho e das mãos de Ag, e ela com a mira posicionada e pronta para o ataque. Com algum temor, Joe se ergueu e se colocou bem ao lado dela, e pôde ver o medo em seu rosto. Mais uma coisa que o assustou. Com o olhar fixo naquela esfera amarela entre os arbustos, ele sussurrou perto do ouvido dela.

– O que estamos enfrentando?

Ela moveu a boca, mas não fez ruido, então balançou a cabeça tentando fazer a razão voltar. Quando terminou, seus olhos tinham mais foco.

– Não existem muitas criaturas na floresta que possuem apenas um olho. Um número menor ainda que tenham esse olho amarelo.

Joe pensou nas palavras de Ag. Significava que ela tinha alguma ideia do que estava por vir, mas antes que ele pudesse perguntar, ela terminou o raciocinio.

– Mas somente uma que eu conheço combina esse olho amarelo com esse fedor maldito.

O cheiro já estava tão a sua volta que ele tinha se acostumado e esquecido dele, como algo que fica no fundo de sua cabeça, mas sem realmente sair dali. A única definição que Joe conseguia encontrar era de podridão, mas acumulado e comprimido. Como se muito alimento estivesse armazenado em um único lugar e tudo ficasse podre, e curtisse a podridão por algum tempo.

Ou corpos. Muitos corpos abandonados por muito tempo tinham um cheiro parecido. Ele lutou contra as memórias que vieram junto com esse pensamento, e, com algum custo, conseguiu manter a cabeça sã. Com muito custo, para ser sincero.

– Me de o nome que está na sua cabeça – era Grond – talvez nós conheçamos – ele não estava com o medo que Ag sentia. Nem mesmo o medo que Joe estava sentindo.

– Não é um nome que vocês conheçam – ela sussurrou – nos povos ao sul, chamam de Map…

A fala de Ag foi cortada por um profundo som grave e contínuo, vindo da direção dos olhos. Joe sentiu seus ossos vibrarem com as profundezas daquilo, e sua espinha arrepiou antes mesmo dele sentir medo. Mas o medo veio logo depois. Havia uma ânsia no ruído, uma necessidade que denunciavam fome. Uma fome e vontade do tamanho do mundo, muito maiores que qualquer coisa que Joe pudesse superar. Um peso enorme pareceu caiu sobre os ombros dele, o paralisando, como uma capa de centenas de quilos, e a únicas coisas que ele conseguia sentir eram o suor frio descendo pela nuca e molhando sua camisa, e medo. Muito medo.

O som durou mais de um minuto, e cortou a noite silenciosa, então foi baixando de volume, até que sumiu. O olho amarelo se fechou, e Ag deu um suspiro de alivio. Joe ainda estava com a espada em mãos, tremendo com o som.

– Que bicho faz um barulho dessa altura? – Grond tinha um tom assustado na voz agora.

– Um desgraçado de grande – era Joe, se recuperando – acho melhor sairmos daqui. Não gostei daquele olho amarelo, nem desse som todo.

– Você não vai me ouvir reclamando – o grande homem já estava guardando as coisas.

– Não sei se é uma boa ideia.

Os dois homens olharam para Ag, com a mesma expressão de incredulidade no rosto. Antes que pudessem perguntar, ela mesma explicou.

– Para qual lado iriamos? Oposto ao olho? – Grond concordou rapido com a cabeça – Isso nos denunciaria como “presa” aos olhos de qualquer predador. Em direção do perigo? – Joe fez que não com a cabeça – Isso diria que estamos querendo “conquistar territorio”. O mais sábio seria juntar fogo, fazer uma fogueira maior para espantar qualquer criatura. Na dúvida podemos fazer mais de uma fogueira.

– Impensável – Joe disse sem emoção. O medo já estava saindo de seu sistema, e ele voltava a pensar nas necessidades mais básicas – isso nos denunciaria para Epolaine. Sairiamos do menu de um animal para irmos para as grades de outra.

Ag coçou a cabeça.

– Se ela está tão próxima, também escutou o som. E se tiver meia cabeça, sabe que não deve se aproxima mais. Acho que estamos a salvo dela.

– Não tem como garantir, Ag, você…

– Eu não vou morrer por causa da sua ignorancia, Joe!

A resposta foi tão súbita e desesperada que pegou ele desprevinido. Antes que pudesse retrucar, ela continuou.

– Você é o chefe, eu sei, mas nós não estamos na cidade. Aqui as regras são diferentes, e, mesmo você sendo o chefe, não sabe como as coisas funcionam. Nós vamos acender uma fogueira grande. Isso vai afastar o dono daquele olho amarelo. Passando o resto da noite com tranquilidade, podemos continuar. Eu até levo uma parte das suas coisas, que tal?

Grond nem esperou sua resposta e começou a pegar lenha. Ele sentiu a ofensa do desrespeito, e começou a pensar como responder a afronta. A espada ainda estava na sua mão. Poderia se aproximar e atacar ela com o corpo da lamina, para mostrar quem manda e não ferir de forma grave. Pensou porém que Grond se oporia, e enfrentar ele seria completamente diferente. Guardou a espada e começou a juntar lenha também.

O clima de tensão foi se dissipando, conforme eles agrupavam um grande monte de madeira. Grond parou de coletar mais e se esforçou em fazer o fogo pegar, novamente com dificuldade, devido a umidade. Joe se aproximou de Ag, que estava na borda da clareira pegando alguns troncos maiores. Ela olhou para ele e viu o que queria que ela visse. Um pouco de ofensa, porém compreensão.

– Escute, Joe – ela disse – desculpe a rispidez. Apenas acho que é o mais seguro. Amanhã pela manhã já poderemos seguir viagem.

– Tudo bem Ag, eu entendo. É apenas um periodo de dificuldade. Riremos disso no futuro, você vai ver. Eu ainda vou contar essa história toda dizendo que o ruído que ouvimos era, na verdade, o ronco de Grond.

Ela riu tanto que precisou largar a lenha no chão. Uma gargalhada gostosa e cheia de vida, que acabou por alegrar Joe também, que ria baixinho.

Uma esfera amarela surgiu, a pouco mais de um metro de onde Ag estava, a uma altura de três metros do chão. A expressão de Joe foi de riso para preocupação em uma batida de coração, e de preocupação para desespero em outro.

Não houve ruido nenhum de movimentação conforme uma enorme garra surgia entre a vegetação e atacava Ag. A gargalhada dela foi interrompida, e ela se jogou no chão, demonstrando um reflexo incrível, mas não foi rápido o suficiente. A garra acertou o braço dela, próximo ao ombro, e ela gritou enquanto caia, o sangue jorrando do ferimento.

CONTINUA

Compartilhe!

Um comentário em “Terror na Floresta – Parte 2

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *