Terror na Floresta – Parte 1

Os cavalos estavam cansados, mas eles não podiam parar. Não ainda.
A Estrada Marrom corria sob os cascos, gritando o som dos animais em alta velocidade. Sempre havia o risco de um deles tropeçar em algo e o cavaleiro cair e quebrar o pescoço, ainda mais a noite, mas eles não poderiam diminuir enquanto Epolaine estivesse em seus encalços. E Joe sabia que ela estava. Maldita mulher.
A bolsa tilintava, amarrada ao ombro e pendurada até a cintura. Não tivera tempo de contar ainda, mas eram mais de cinquenta moedas de ouro. Mais que o suficiente para um aposentaria cheia de luxo, sim senhor. Talvez dividindo com os dois que corriam a seu lado, os luxos fossem menores, mas ainda assim, luxos.
Antes de iniciar a fuga, ele tinha certeza que Grond não conseguiria acompanha-lo, e serviria para atrasar os perseguidores, mas ali ao seu lado estava o enorme homem sorridente, com seu enorme machado pendurado nas costas, e seu enorme cavalo de combate, correndo como um de fuga. No final fora Felix que não conseguiu. Pobre Felix. Esperava que ele estivesse enrolando ao máximo a maldita capitã.
Preocupado como estava, não chegou a ver a parede de árvores que surgia a sua frente. Primeiro se irritou pelos cavalos diminuirem a velocidade sem motivo, até que se virou para a frente e viu. Não havia outra forma de descrever o que estava a sua frente, exceto a palavra muralha. As árvores se entrelaçavam, galhos grandes com galhos pequenos, e fechavam qualquer possível caminho.
– Puta merda… – ele escutou sua outra companheira, Agnella, falar entre a respiração.
“Puta merda mesmo”, ele pensou, mas não podia diminuir a moral dos outros dois. Aproveitou o tempo que tinha entre onde estavam e o inicio das árvores para pensar num plano. Mesmo Grond perdera o sorriso jovial, substituido agora por uma carranca pensativa. A expressão não combinava com o homem.
Quando eles pararam o cavalo ele já sabia o que falar e fazer. Desceu do cavalo e começou a descarregar as coisas que achou que precisaria.
– Você não disse que a Estrada Marrom levava até o último Castelo? – um tom de irritação cobria a voz de Grond.
– É o que dizem os sábios: “A Estrada Marrom liga os Seis Castelos”.
– “E a Árvore da Verdade” – completou Agnella – mas ditados não são necessariamente verdades. Olhe para essas árvores. Isso te parece um Castelo?
– Bom, o nome do último Castelo é Castelo Verde – e riu – talvez seja esse.
O silencio que se seguiu foi apenas cortado pelo tilintar de moedas e o som do equipamento dele sendo descarregado.
– Joe – ele se virou para Grond – Qual é a ideia agora? Se você descarregar mais um pacote sem me dizer o que está fazendo…
– Me parece óbvio, grandalhão. Não tem caminho de volta. Só há um caminho a frente, e os cavalos não vão conseguir passar.
Novo silencio.
– Se embrenhar na mata, sem cavalos? – era Agnella.
– Sim. Você mesma já me disse que você caçou em florestas.
– Quando eu era criança, Joe!
– Como você planeja que entremos… nisso? – a irritação do homem era proporcional ao seu tamanho agora.
Joe percebeu que os estava perdendo. Parou o movimento que estava fazendo, de remover a armadura de couro de uma das bolsas sobre o cavalo e olhou em volta. Quando tornou a falar, disse no tom de liderança que sabia fazer, e com aço em suas palavras.
– Você tem um machado e dois braços. Acho que consegue abrir uma pequena abertura onde possamos passar.
Antes que pudessem retrucar, ele jogou o equipamento no chão.
– Pelos Três! Qual opção temos? Podemos sentar no chão e jogar cartas enquanto aquela vaca vem nos pegar. Vocês querem morrer em uma prisão dos Orgoth? Eu não.
O silencio foi sua resposta. Ele sentiu que podia recuperar a confiança deles. Sacudiu as moedas.
– Isso é o que temos. Atravessamos essa merda de matagal e continuamos na Estrada Marrom até o Castelo. Lá, ninguém nos conhecerá e nós temos dinheiro. O futuro é nosso. Só… não podemos ficar parados.
Os dois se olharam, e um pouco da irritação de Grond passou. Ele desceu do cavalo sem palavras, sacou o machado e testou em um grupo de galhos que pareciam mais frágeis. Não era um machado feito para o trabalho de um lenhador, mas tinha o peso e o fio necessários para abrir o caminho. Joe não queria trazer mais discussão, então começou a descarregar o cavalo do homem por conta própria. Agnella fazia o mesmo com sua montaria.
Sons de cascos chegavam a seus ouvidos agora, entrecortados pelo som do machado de Grond. Eles não conseguiriam carregar muitas das coisas, mas Joe tinha plena confiança que conseguiriam se virar com o essencial. Deixaram as armaduras para trás e as armas maiores, excetuando o machado que Grond usava. Ele nunca deixaria aquilo para trás. Poderiam fazer fogo, e tinham uma lona para dormir. Um pouco de carne salgada garantiria algum sustento, além do mais, não deveriam demorar muitos dias para atravessar aquele matagal. Pelo menos a parte mais fechada, como estava a sua frente, depois disso, algumas arvores em volta da estrada não seria tão ruim.
Seria inclusive legal. Quer dizer, daria um toque de canção para aquela fuga. “E fugiram pela estrada, sob um tunel de árvores”. Sim, seria bem legal.
– Acho que temos um pequeno caminho – era Grond, o rosto reluzente pelo suor. Ele saiu da abertura que tinha feito e foi se despedir de seu cavalo. Eram companheiros a algum tempo já, e conseguir convence-lo a deixar o animal para trás foi o maior feito de persuasão da carreira de Joe. E essa carreira não era curta.
Eles entraram no pequeno espaço criado pelo machado de Grond e foram seguindo. Abaixados, exprimidos e sentindo-se esmagados pelo peso das árvores a volta, mas caminhando. Após alguns metros, o caminho se abria um pouco, maior que do que onde estavam, já natural. Não poderiam seguir com os cavalos, mesmo com todo o tempo do mundo, pois somente um batalhão conseguiria derrubar arvores o suficiente para um cavalo passar.
Eles permaneceram caminhando daquela forma por mais de uma hora, os ruidos dos perseguidores agora inaudiveis. Joe estava a frente e sentiu o coração pulando de alegria quando notou o que parecia um trilha, seguindo a direção sul. Ele sabia que precisavam ir para oeste, mas a trilha talvez desse em uma clareira onde eles poderiam descansar. Agora ele tinha certeza que Epolaine não entraria na floresta pois não havia como liderar um grupo de soldados naquele lugar. Conseguia imaginar o rosto coberto pela raiva dela, e isso o trazia alguma felicidade.
Viraram na trilha, seguindo o caminho sul, ainda em completo silêncio. Joe sentiu mais felicidade ainda ao perceber que não estavam questionando sua liderança. A bolsa tilintava a cada passo, lembrando-os o motivo daquilo tudo. A trilha então se alargou, após mais uma hora de caminhada. Então, logo a frente encontraram a tão sonhada clareira.
Joe fez o que esperava fazer desde que começaram a fuga. Deixou os pertences pesados no chão e se sentou ao lado deles. Grond parecia aliviado por poder se juntar ao lider, e Agnella olhava em volta, procurando motivos para se preocupar.
– Eles não virão – disse Joe, satisfeito.
– Não é só Epolaine que me preocupa.
– Vamos acender um fogo, não muito alto, e sem folhas para não fazer fumaça – Joe estava confiante – Afinal, nós merecemos.
Grond deu um grunhido de concordancia enquanto começou a juntar um pouco de madeira caida a sua volta. Achar lenha nunca foi tão fácil.
Demorou um pouco até o fogo pegar, pois a lenha estava úmida. Quando pegou, Agnella finalmente se acalmou e se sentou ao lado da pequena chama. Grond era bom. Quase nenhuma fumaça. Se apressaram para aquecer a carne, e o cheiro dela avivou os animos dos três. Enquanto comiam, gracejavam entre si, e Joe estava feliz por ter conseguido manter eles por perto. Teria que dividir a recompensa, sim, mas com a força de Grond e o conhecimento de Agnella, eles não tinham o que temer. Iriam continuar a caminhada assim que amanhecesse.
Eles estavam definindo a ordem de quais seriam os turnos de guarda quando Agnella ergueu a cabeça e olhou na direção da continuação da trilha. Curiosidade em seus olhos.
– O que foi? – Joe não gostou da mudança repentina.
– Vocês estão sentindo esse cheiro?
Joe se concentrou e sentiu. Era uma merda de cheiro ruim. Parecia carne apodrecida por muitos e muitos meses. Estava bem leve, mas ele sentiu o estomago dar uma virada e reclamar do que tinham comido.
– Será que a carne estava velha? – Grond sugeriu.
– Não, estava boa. Esse cheiro vem de outro lugar – Agnella se ergueu e manteve o olhar fixo na trilha.
– Parece que está ficando pior – Grond agarrou o cabo do machado.
– Deve ser só uma carcaça. Podem dormir pessoal, eu fico com o primeiro turno – Joe não estava gostando do clima de tensão se instaurando.
Os outros dois se olharam e tentaram se acalmar. O cheiro continuava piorando, mas eles não comentavam sobre isso, esperando que fosse apenas a imaginação de cada um lhe pregando peças. Em menos de meia hora, estavam deitados dormindo. Quem vive na estrada sabe que uma hora de sono pode fazer toda a diferença, e logo aprende a dormir assim que se deita.
Joe aproveitou a deixa e pegou seis moedas de ouro e colocou em sua bota. “Menos para dividir” pensou ele. O cheiro agora incomodava muito, mas ele não sabia o que fazer em relação a isso. Para ajudar a passar o tempo começou a contar as moedas que estavam na bolsa para calcular as divisões.
Um galho se quebrou no matagal fechado a sua frente e ele ergueu a vista. Agnella estava acordada agora. Como tinha o sono leve essa mulher. Ela ergueu a mão e começou a pegar o arco, e ele viu os braços e pescoço arrepiados dela, na decisão que o corpo faz quando está em perigo, de fugir ou lutar. Foi quando Joe ficou assustado. Será que ela tinha visto alguma coisa? Fechou rápido a bolsa.
Então ele viu o que estava entre as árvores. Um olho amarelo brilhava na mata na direção deles.

CONTINUA


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