A Decisão de Fred – Parte Final

Fred vestiu sua melhor camisa naquela manhã, pois sabia que deveria parecer profissional. Foi de carro, outra raridade, para garantir a pontualidade e demonstrar comprometimento, como era de se esperar.

Um Procedimento Interno não era algo a ser ignorado. Fred passou boa parte da noite, bem como o começo da manhã internalizando suas justificativas e monólogos, explicando os motivos que o incentivaram a tomar a decisão de interromper a comunicação da máquina com o sistema central. Tudo mentira, claro, mas era o que precisava ser feito para ele ter alguma chance de manter o emprego.

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A Decisão de Fred – Parte 2

Fred se virou para a segunda tela e começou a buscar as informações necessárias com a velocidade que só a prática consegue trazer. Por outro lado ele sentiu o suor na nuca, pois sabia o peso do que teria que decidir.

O primeiro paciente, Sandoval Pereira, constava na casa dos quarenta anos, sexo masculino, corte abdominal e sangramento agressivo. Estava em boa forma e, se entregue a operação tinha noventa e sete por cento de chances de sobrevivência. O cálculo mostrava 439 de Valor Integrado.

A segunda paciente, Mirtes Trindade, era uma mulher, na casa dos sessenta anos, vítima de três tiros no tronco. Tinha problemas de movimentação e fraqueza nos ossos. O computador acusava 461 de Valor Integrado, e a chance de sucesso na cirurgia era de setenta e nove por cento.

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A Decisão de Fred – Parte 1

“Paciente 458 entrando” avisou a voz metálica pelo alto falante, logo atrás da cadeira de Fred.

O analista observou em sua tela enquanto uma enfermeira magra e alta, com batom escuro e aquela velocidade calma única de profissionais de saúde, trazia a maca para dentro da sala de cirurgia emergencial. O paciente, um homem com seus quarenta ou cinquenta anos, desacordado, foi levado até o centro do recinto. Fred pôde notar que o ferimento em seu pescoço vazava sangue, apesar da bandagem enorme que cobria o corte.

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As Crônicas da Nova República Paulista – Carga Internacional – Parte 5

Havia um som agudo e constante e uma dor grande em minha perna e clavícula esquerda. Fumaça. O capo do Maverick estava amassado e saindo fumaça, e o cheiro invadia minhas narinas, me deixando mais desperto.

Então a compreensão veio inteira. Eu havia batido. Olhei em volta, mas devagar pois minha cabeça doía demais, e vi o carro de meus perseguidores capotado uns dez metros à minha esquerda. Ouvia o ronco de Leôncio, mas não via ainda a estrada. Onde ela estava?

Então uma careca surgiu na janela do carro capotado, e saiu debaixo do veículo com agilidade assustadora para alguém que havia acabado de bater. Ainda estava de óculos escuros, mas o palito na boca havia sumido.

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As Crônicas da Nova República Paulista – Carga Internacional – Parte 4

Voamos até Pinheirinhos, e mais de uma vez o carro perdeu totalmente o contato com o chão, devido às imperfeições da estrada tão gasta, e, chegando na cidade, não houve a mesma reverência que tivemos antes da fronteira. Eu ainda não tinha decidido se tinha feito a escolha certa. Depois de entender que a carga eram armas, o mais certo seria retornar e deixar aquela caminhoneira sozinha. Mas eu a tinha cercado com meu acordo, e como os 400 duques em minha carteira comprovavam, ela não era uma pessoa de meias medidas, nem de descumprir acordos.

– Ali! – apontei para uma saída entre o guardrail e umas árvores feias – entre ali!

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As Crônicas da Nova República Paulista – Carga Internacional – Parte 3

A estrada ali estava terrível, e o que antes da Libertação poderia ser feito em trinta minutos demorava horas. Eddie não conseguia dirigir tão rápido quanto prometera, mas ninguém conseguiria. Cruzeiro surgiu no horizonte, um amontoado de moradias simples no meio de escombros. Se Cachoeira Paulista parecia uma ruína, Cruzeiro era apenas uma sujeira no mapa, mais um marco histórico do que uma cidade propriamente dita. Um antropólogo nunca reconheceria aquele lugar como uma habitação, mas os historiadores saberiam o significado daquele amontoado. O cerco desesperado e feroz que derrubou metade de todas as vidas perdidas na guerra.

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As Crônicas da Nova República Paulista – Carga Internacional – Parte 1

O odor da Parada Russa era uma mistura de álcool puro e cerveja barata. Seu Mauro, o dono do lugar, costumava se orgulhar, dizendo se tratar de um “boteco das antigas”, mas eu estava mais inclinado a dizer “fedendo a bar”. Nunca na frente dele, é claro, pois seria indelicadeza.

Era um lugar com muitos clientes. Apesar da localização tão ao norte da República de São Paulo, a vodca barata no cardápio garantia a presença de tantos viajantes e caminhoneiros. Combinando isso com quartos baratos, você quase conseguia fazer vista grossa para um combustível tão inflacionado. Quase. Mas um dono de estabelecimento tem que ganhar dinheiro, e eu mesmo não gastava com combustivel.

Aliás, o nome real do lugar era Lanchonete do Rio Verde, mas como não tinha rio nenhum e sobrava vodca, todo mundo conhecia como Parada Russa.

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