Trabalho Inacabado – Parte 1

Seu peito ardia. Johan não sabia dizer se era pela faca alojada ali ou por estar embaixo da água. Talvez pelos dois. Qualquer esforço para mover os membros resultava em nada além de uma agonia cortante que surgia em volta do local onde a faca estava e corria até a ponta dos dedos.

Uma pequena lufada de ar acertou seu rosto e seus pulmões respiraram, apesar da dor profunda, por um breve segundo. A mente clareou um pouco, assim como a dor, e ele sentiu que era senhor de seus pensamentos de novo. Não por muito tempo, mas não havia muito tempo mesmo, então que se dane. Aqueles canais subterraneos davam Fim sabe aonde e Johan não teria esperança de se salvar mesmo se suas condições fossem saudaveis. Naquelas condições então, nem com muito otimismo. E ele definitivamente não era otimista.

“O que ele quis dizer com ‘Sinto muito por isso’?”

A noite tinha mudado de sorte rápido. Os planos haviam sido preparados por três quinzenas. Três comparsas contratados, sete guardas comprados, nada menos que cinco diferentes rotas de fuga. Tudo isso para ser atingido na nuca, assim que chegou ao quarto do Herdeiro Olaf. Entre a consciencia e o desmaio, escutou o jovem Herdeiro gritar por socorro, apesar de já ter dominado a situação. Então, o jovem lorde aproximou o rosto de barba loira do seu e guardou algo em seu bolso direito da frente da camisa.

“Acudam! Invadiram meu quarto!” Olaf berrava para o corredor. Seis guardas entraram, dois dos quais comprados, mas pagos apenas para olhar para o outro lado quando ele passou, não para trair o Lorde que pagava seu salario e salvar a vida de Johan. Mesmo quase desmaiado sabia que isso não aconteceria. Não era um otimista. Um dos pagos se aproximou e amarrou as mãos dele. Ele achou que tinha sido bom, pois acreditou que as amarras deveriam estar frouxas para ele escapar, mas ao torcer os pulsos, percebeu que estavam firmes, e se sentiu profundamente traido.

Alguns momentos depois, o próprio Jesper, patriarca da dinastica Markussen entrou no quarto preocupado. O viu caido no chão, viu o Herdeiro em pé, a salvo. Com uma expressão de ódio, deu um tapa no rosto de Johan e pegou o papel que Olaf havia depositado, buscando no bolso correto.

O Lorde nem leu o papel, apenas sacou aquela bela faca e a enterrou em seu peito. Ele conseguiu ouvir um sussurrado “Sinto muito por isso”, e ficou na duvida se era sua imaginação. Fechou os olhos e deixou o corpo travar no chão, fingindo de morto. Não que fosse muito esforço, visto que ele estava grogue da pancada na nuca e com uma faca no peito, mas ele tentou ficar imovel e avaliar a situação, sentindo a consciencia se esvaindo aos poucos. Ele não relaxou o corpo totalmente, pois sabia que não era assim que um cadaver caia. Alguns musculos ficavam retesados, a posição raramente era natural. Ele caiu de lado e deixou.

A faca não atingiu o coração, disso ele estava certo, senão não teria consciencia. Pulmão talvez? Ele achava possível, mas improvável, pois a respiração ardia bem menos do que uma lesão séria deveria. A cabeça estava voltando a funcionar e ele se permitiu ter esperança. Foi quando Jesper se virou para ele, e Johan só percebeu isso pelo som da voz do Lorde, que ele se preocupou. A voz veio fria aos seus ouvidos.

“Devo ter errado, esse homem está vivo-”

Ele não esperou a continuação da frase. Com um salto, ignorando a dor, ele se colocou de pé e saiu em disparada, meio correndo, meio cambaleando, para a janela, por onde havia entrado. Se jogou de lá, sem pensar muito no que fazer depois. Ele sabia que se ficasse mais um segundo naquele quarto, suas chances baixavam para zero. Saltando da janela, ele talvez tivesse uma em alguns milhões, mas era melhor que zero. Isso não era otimismo, era probabilidade.

A janela era baixa, mas ele havia ignorado o fosso. Caiu na água gelada, o que o ajudou a acordar. As mãos estavam amarradas nas costas, e Johan tentou passar por baixo das pernas para poder usa-las, mas um silvo de dor surgiu do movimento. Temeu ter, finalmente, perfurado o pulmão, e sentiu a cabeça ficando leve de novo, apesar da água. Decidiu ficar imóvel, então percebeu que havia correnteza ali.

“Então é assim que o fosso fica limpo”. Havia uma tubulação que deixava a água em movimento, mas ele não sabia como aquilo funcionava. Sentiu o puxão para o fundo e tentou lutar, mas as pernas não deram conta do esforço e ele se viu arrastado. De uma em alguns milhões, as chances pareciam ter zerado novamente.

Das tubulações para os canais, a correnteza o mantinha abaixo da superficie, e ele sentia a força indo embora junto com a consciencia e a dor. Não havia porque ficar preocupado, e tudo foi ficando leve e tranquilo.

Não havia mais problemas, e ele estava num lugar escuro, porém confortável.

“Isso é morrer?” foi a ultima coisa que passou por sua cabeça.


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